A ocasião faz o vinho

RBG Vinhos

Por Ricardo Bohn Gonçalves


Os 900 quilômetros que percorri entre Saint-Jean-Pied-de-Port, nos Pirineus, na França, e Santiago de Compostela, no norte da Espanha, foi um período de muito aprendizado. Foi nesta caminhada, que fiz sozinho em 1998, que me colocou, profissionalmente, no mundo do vinho, em uma história que um dia vou contar por aqui. Mas uma das lições desta viagem, talvez a mais simples e nem por isso menos importante, é que a ocasião faz o vinho.

Na minha trilha, entre as muitas subidas e descidas, e algumas bolhas nos pés, ansiava pelo vinho que me esperava a cada final de dia, no menu do peregrino. Aliás, nem sei se este menu ainda existe, mas ele era perfeito para nós, andarilhos. Parava sempre nas cidades pelo caminho, em restaurantes bem simples, mas de comida saborosíssima – ok, vocês podem pensar que a fome é o melhor tempero e talvez estejam certo em uma ou outra parada, mas claramente não em todas. A comida simples era servida sempreacompanhada de uma jarra com um litro de água e uma garrafa de vinho. Eram tintos, em sua maioria, em garrafas sem qualquer identificação, mas que eu provava como se fosse um néctar dos deuses.

Sim, a ocasião, que podia ser com amigos que fiz naquela parada, com moradores locaise até sozinho, era mais do que apropriada para se deliciar com o vinho. E em uma rota que até incluiu algumas regiões vinícolas, como a Rioja.

A ideia de caminhada e brancos e tintos – e também de que a ocasião faz o vinho – me acompanha desde então. Uma década depois de Compostela, herdei do Eduardo Solari, o Giga, dono de um dos melhores humores que já conheci, a função de organizar caminhadas com os amigos. E o vinho sempre estava presente – o Giga foi um dos fundadores da Maison du Vin, junto com o Miguel Juliano. Não podia ser diferente.

Eram trilhas perto de São Paulo, do qual saíamos bem cedinho, aos sábados. Nosso ponto de encontro era a Galeria dos Paes, onde, prontos para um dia de aventuras,encontrávamos alguns amigos chegando para um café da manhã pós-balada. Eu alugava uma van e seguíamos para o roteiro proposto. E até hoje me surpreendo como há destinos perfeitos para os andarilhos perto de São Paulo, e de como a paisagem do interior é linda, com suas montanhas, colinas e muito verde.

Ao alugar a van, eu tinha sempre um pedido: que o motorista providenciasse uma geladeira, que poderia ser daquelas mais simples, de isopor, para gelar os vinhos. E, assim, fazíamos a nossa rota, conversávamos, curtíamos a paisagem, desafiámos os nossos corpos e, quando terminavam, tinha sempre vinhos nos esperando.

Não eram os melhores vinhos, e nem a ocasião pedia isso. Mas eram vinhos deliciosos. Há uma frase conhecida que diz que degustar o Château Mouton Rothschild, um dos grandes tintos de Bordeaux, todos os dias é o mesmo de almoçar de fraque e cartola diariamente. E isso diz muito sobre estes momentos. Claro que há ocasiões que pedem um vinho especial. Mas na maioria das vezes é a ocasião e a boa companhia que fazem o vinho melhor.

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Comentários

  1. Silvio Eid24/8/25

    Excelente e perspicaz observação. É a mais pura verdade.

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    1. RICARDO BOHN GONCALVES26/8/25

      obrigado Silvio

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  2. Derek Barnes24/8/25

    Também fizemos (eu e minha esposa) em 2003 essa linda caminhada para Santiago de Compostela, partindo de Saint-Jean-Pied-de-Port. E lembro dos bons vinhos, servidos com panache pelos garçons. Em Léon num restaurante famoso, a garrafa foi simplesmente virada de cabeça para baixo para despejar o vinho de excelente qualidade nas taças! Não precisava de frescura, o vinho falou por si!

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    1. RICARDO BOHN GONCALVES26/8/25

      Oi Derek,
      não sabia que tb tinha feito
      bons momentos, não ?

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  3. Anônimo24/8/25

    Olha só. Quase nos cruzamos por lá pois fiz o caminho em 99. Também tenho rica recordação, em especial a sopa galega com um garrafa de vinho. Na Galícia fazia frio!

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    1. Anônimo24/8/25

      Sergio Hilgert

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    2. RICARDO BOHN GONCALVES26/8/25

      Oi Sergio,
      quase mesmo nos encontramos
      tudo por lá é maravilhoso, não ?

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  4. Vinicius Toledo24/8/25

    Para ser sincero nunca pensei seriamente em fazer essa peregrinação que, talvez seja a mais famosa do mundo mas, após ler o seu texto, pude ter um olhar mais gastronômico sobre o evento e pareceu ser bem mais atraente a idéia de caminhar tanto e ter muitas bolhas nos pés mas, hoje já não daria mais, haja vista o fato de ter dois joelhos operados. Que pena que não li seu texto a 30 anos atrás hehe!

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    1. RICARDO BOHN GONCALVES26/8/25

      se soubesse teria te chamado 30 anos antes...........kkkkk
      mas a gastronomia vale a pena também
      abraços e obrigado pela sua contribuição permanente

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  5. Anônimo24/8/25

    Oi, Ricardo. Adorei te encontrar aqui. Acredita que não sabia deste seu blog?! Que coisa! Sou atenta e, agora sei, também desatenta. Lamento não ter participado das excursões do passado. Quem sabe, haverá outras no futuro. Já escreveu como é beber um belo vinho sozinho, no início da tarde - a que antecede o almoço - de um domingo banal? Beijo

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    1. RICARDO BOHN GONCALVES26/8/25

      Ola, como respondeu como Anônimo fiquei sem saber quem você é
      Mas a idéia de um belo vinho sozinho é um bom tema. E as vezes é a situação idela
      beijos

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  6. Anônimo24/8/25

    Alô Ricardo. Acabei de ler seu blog para o JMarcos. Nos deliciamos.
    É verdade - a ocasião e a companhia fazem toda a diferença. Lembramos dos bons momentos com amigos regados a um bom vinho e comida simples e gostosa. A vida pode ser simples e prazeirosa. Bjo

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    1. RICARDO BOHN GONCALVES26/8/25

      Oi Marita,
      que bom que gostaram e vocês fazem parte desses amigos que geram bons momentos
      beijos

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  7. Tonico Ferreira24/8/25

    Que linda lembrança, Ricardo. O Caminho de Santiago é algo mágico. Não pude fazer a pé o caminho francês, o clássico, quando era mais jovem. Fiz dois anos atrás de bike o caminho português, mais curto.
    Dizem que o Caminho de Santiago não é viagem única, mas um convite a voltar, pois os momentos de reflexão e transformação, deixam uma marca profunda.
    Eu vou votar. Vou fazer novamente agora em Setembro.

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    1. RICARDO BOHN GONCALVES26/8/25

      Oi Tonico,
      Que ótima notícia que irá fazer novamente. Como disse o Caminho é algo mágico, sim

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  8. JOSE ROBERTO GUSMAO26/8/25

    Belo texto, Ricardo. Nos conhecemos quando vc estava se preparando para o famoso caminho, que tanta transformação produz. E, de fato, sua vida passou por uma reviravolta que os amigos sempre creditaram a ele. Às vezes, diante de uma sua decisão inesperada, diziam que era "culpa do caminho de Compostela"! Com alguma inveja, misturada com admiração, por alguém que se propôs a enfrentar os 900 kms do percurso e, no caminho, encontrar-se consigo mesmo. Parabéns!

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