As lembranças da Mistral

RBG VInhos
Foto: Mistral

Por Ricardo Bohn Gonçalves

As notícias sobre o Encontro Mistral, que no começo de agosto reuniu diversas vinícolas do portfólio desta importadora em São Paulo e no Rio, me levaram, saudoso, aos anos 1980. O mercado de vinhos era muito diferente do atual, não tínhamos esta disponibilidade de rótulos e o consumo era baixíssimo. Mas já tinham os seus apaixonados pela bebida e eu, talvez sem nem saber, dava os primeiros passos nesta paixão que se transformaria, também, na minha profissão.

E entre os meus primeiros passos estava participar de uma confraria de vinhos, com encontros regulares para entender e desfrutar de brancos e tintos. Na verdade, fui o último a ser convidado para participar de confraria que reunia pessoas como o Ciro Lilla, que ainda nem sonhava em ter a sua importadora, e o Antônio Lapa Silveira, que foi sócio da Mistral no início. Participavam também o Mario Telles Júnior e o Reizinho, que é como o José Luiz Borges é conhecido; o querido Jorge Lucki, o inesquecível Saul Galvão, e o José Osvaldo do Amarante, todos nomes que iriam fazer história no mundo do vinho nas décadas seguintes.

A confraria não resistiu ao Plano Cruzado, um dos vários planos econômicos implementados para tentar colocar a nossa economia no rumo, na época do governo José Sarney. Mas foi ali que comecei a conhecer melhor o Ciro Lilla. Conheci uma pessoa de uma generosidade incrível e que, já naquela época, tinha um conhecimento enorme sobre vinhos, o que só aumentou nas décadas seguintes. Quando os encontros aconteciam na casa dele, provávamos o que havia de melhor. Vega Sicilia, Barca Velha, Château Mouton Rothschild, entre outros, foram vinhos que provei pela primeira vez graças a sua generosidade.

Ciro também degusta muito bem e agora, olhando para trás, era mesmo inevitável que ele acabasse por ter uma importadora de vinhos. E ele comprou a Mistral no início dos anos 1990, junto com o Lapa. A importadora já existia, mas Ciro, com o seu conhecimento e sua paixão, transformou totalmente o seu negócio. Penso que o seu interesse sobre Napoleão Bonaparte – ele é um grande estudioso deste militar francês,que foi um ótimo estrategista, também ajudou a planejar os seus negócios.

Ao longo destas décadas, aprendi com a inteligência do Ciro, que conseguia tocar dois negócios ao mesmo tempo – além da importadora, a família Lilla tem uma indústria de máquinas para café. Pude observar a sua honestidade com os negócios e, ainda, me diverti com o seu humor maravilhoso.

Posso resumir o Ciro Lilla como um apaixonado que soube traduzir a sua paixão e seu conhecimento nos negócios. E, isso, não é nada fácil. Mas acho que os goles dos bons vinhos sempre ajudam nisso...

Comentários

  1. Vinicius Toledo17/8/25

    Lembro que no final da década de 90, ainda não conhecia muito sobre vinhos então, fazia como muitos até hoje fazem, comecei a comprá-los em supermercados mesmo e lembro que nada me agradava. Comprava vinhos mais caros para ver se achava algo de bom e nada. Pensei comigo, se nada acontecer para mudar essa situação vou preferir parar com esse hábito de beber vinhos e realmente estava um tanto quanto desesperançoso, até que entrei na banca de jornais onde costumava comprar minhas revistas e meus olhos se depararam com a única revista especializada neste assunto, que havia naquela época, era a Vinho Magazine, foi como um raio de luz, comprei-a cheio de esperança de conseguir descobrir locais mais especializados na venda desta bebida tão nobre. Foi quando descobri a Mistral e logo passei a receber seus famosos catálogos e, a partir daí é que minha paixão por vinhos realmente decolou. Depois fui descobrindo livros sobre o assunto e aí era só ler e degustar e é o o que fazemos até hoje. O mundo do vinho é maravilhoso, quanto mais leio e degusto, menos acho que sei alguma coisa e isso não é incrível?

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  2. Andre Fischer17/8/25

    Lembro de ir à rua Rocha, muitos anos atrás e ser atendido diretamente por ele, prateleiras lotadas dos melhores vinhos, era uma delícia.

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  3. Anônimo17/8/25

    I’m pouco depôs, talvez em 1998, fui fazer o curso de Introdução na ABS. Você foi meu professor. Comprava vinhos em supermercados. Eram ruins. Passei a comprar na Mistral. Eram bons. Ainda bem que descobri isso logo cedo na jornada, que continua. Grande abraçar. Ótima história!

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  4. Anônimo17/8/25

    Adorei a história. qualquer apaixonado por vinho deve muito ao Ciro Lilla e Otávio Piva que desbravaram este mercado nos anos 80 e 90.

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