
Por Ricardo Bohn Gonçalves
O Julgamento de Paris, provavelmente a mais famosa degustação às cegas, completou 50 anos da sua realização no final de maio. Organizada pelo britânico Steven Spurrier, na época conhecido pela sua loja e pela escola de vinhos que tinha em Paris, a degustação fez história ao pontuar melhor brancos e tintos californianos, então de vinícolas desconhecidas, do que os grandes franceses. Nos brancos, o vencedor foi o Château Montelena 1973 e, nos tintos, o Stag’s Leap Wine Cellars 1973, deixando para trás borgonhas como o Meursault Charmes Roulot 1973, e bordeaux, como o ChâteauMouton-Rothschild 1970 e o Château Haut-Brion 1970.
O resultado mudou o mundo do vinho para sempre e brinco que a California deveria erguer uma estátua a Steven Spurrier (1941 a 2021) em sua praça principal. Primeiro por mostrar que a França não detém, sozinha, a primazia dos melhores vinhos. Claro que há ótimos vinhos em seus grandes terroirs – aqui, nunca esquecer que eu sou um convicto apreciador da Borgonha – mas não é apenas o solo, o clima e as variedades francesas que conseguem resultar nos melhores vinhos.
Segundo, porque o Julgamento de Paris abriu espaço para os chamados vinhos do Novo Mundo mostrarem a sua qualidade. Eu tive a oportunidade de participar da Cata de Berlin, que o chileno Eduardo Chadwick organizou em São Paulo em 2005. Foi uma degustação também histórica, desta vez para os vinhos chilenos, e que foi conduzida também por Steven Spurrier. Nela, Chadwick colocou à prova os seus tintos premiuns, como Viñedo Chadwick, Seña e Don Maximiano, junto com grandes rótulos de Bordeaux e da Itália.
O resultado colocou o Don Maximiano Founder’s Reseve 1995 em primeiro lugar, seguido pelo Seña 1997. Os rótulos franceses apareceram só a partir do terceiro lugar, com o Château Margaux 1995 e, em quarto, com o Château Mouton Rothschild 1995. E isso ajudou muito na campanha do Chile pelos vinhos premium.
Muito já se falou sobre o Julgamento de Paris. Há um livro, que eu recomendo, que foi escrito pelo jornalista americano George Taber. Correspondente da revista Time na década de 1970, ele foi o único jornalista presente nesta degustação histórica e conta bastidores da prova. Impressiona como os degustadores – e Aubert de Villaume, na época co-proprietário da mítica Domaine de La Romanée-Conti, se empolgavam com os rótulos californianos, na certeza de que eram franceses. Isso só foi possível porque Spurrier decidiu servir os vinhos às cegas.
E aqui quero chamar a atenção para a importância das provas às cegas, que acho que é um dos grandes legados do Julgamento de Paris. Ao provar vinhos sem saber o que tem na taça, ou seja, sem a influência do rótulo, conseguimos realmente avaliar o que estamos bebendo, sem interferências externas. Porque até para o crítico mais imparcial, o rótulo pode influenciar.
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