
Por Ricardo Bohn Gonçalves
Os incêndios na França e na Espanha, registrados nesta semana, são o mais recente exemplo de que a mudança climática chegou definitivamente ao mundo do vinho (e, infelizmente, não apenas nele). Ao longo da semana, as imagens mostraram vinhedos, inclusive de vinhas antigas, queimando na Espanha e também uma nuvem de fumaça encobrindo os vinhedos de Bordeaux.
São fatos que se somam a fenômenos conhecidos, alguns muito negativos e outros bem positivos, quando o tema são apenas os vinhos. A chuva excessiva traz os seus estragos, como a que atingiu o Rio Grande do Sul, arrancando vários dos vinhedos da região dois anos atrás. Por outro lado, o aquecimento global faz a alegria dos ingleses, que agora se orgulham de ter os seus próprios espumantes e, diga-se, de muita qualidade.
Nunca vou esquecer da primeira visita ao Brasil de Michel Rolland, o mais famoso flying winemaker do mundo, falecido recentemente. Ao apresentar os vinhos da Miolo, a vinícola que o contratou, ele falou que o aquecimento global poderia ser bom para o vinho. Sim, a maior temperatura durante o amadurecimento das uvas nos vinhedos é o principal efeito positivo desta mudança climática. Mas quando pensamos em todas as mudanças causadas pelo clima, o saldo certamente não é positivo.
O fogo desta semana contribui para a redução da área plantada com vinhedos. É a natureza fazendo a sua parte na diminuição da extensão dos vinhedos, quase que seguindo a ação do homem para fazermos um contraponto com o meu texto da semana passada. Nele, contava das vinhas arrancadas na Austrália, como exemplo de ação de produtores desesperados e que precisam diminuir a produção. Mas, agora, a ação do fogo não é intencional e vinhedos importantes estão se perdendo na força da natureza.
O fogo, ainda, traz o conceito de smoke taint, que é conhecido como a contaminação pela fumaça. Nele, é como se a fumaça grudasse na casta da uva que, quando vinificada, traz notas nada agradáveis de queimado e defumado ao vinho. E este é o novo desafio para os enólogos: como vinificar de maneira que estes aromas e gostos desagradáveis não marquem o vinho, quando pronto.
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