
Por Ricardo Bohn Gonçalves
Não sai da minha cabeça um vídeo que eu vi no Instagram recentemente, com um trator arrancando vinhedos na Austrália. Não era um vinhedo qualquer, mas plantas do De Bortoli, uma das referências dos bons shiraz australianos. Muitas das vinhas tinham mais de 40 anos, estavam bem cuidadas, produziam a contento, sem qualquer vírus ou outra doença que ameaçasse seus frutos.
Mas foram arrancadas. A decisão drástica reflete a atual crise que atinge o mundo de Baco. Produzimos mais vinhos do que conseguimos consumir. São várias as razões para isso, a começar pelas novas gerações de consumidores, que não foram atraídas pelas mensagens do vinho e pela crença em uma vida mais saudável, onde o álcool é visto como um vilão. Na Austrália, pesa ainda a retração do enorme mercado chinês, que até o início do covid era bastante demandante dos rótulos do país do canguru, mas não voltou ao consumido com a mesma força ao vinho depois da pandemia.
Os dados da OIV, a Organização Internacional da Vinha e do Vinho, explicam ações como as de De Bortoli. Apenas no ano passado, comparado com 2024, a área de vinhedos teve uma retração de 0,8%, no mundo, enquanto a produção de brancos e tintos caiu 0,6%. Mas o que preocupa é que o consumo teve uma redução maior do que a sua produção, com queda de 2,7%. Ou seja, mesmo produzindo menos, o mundo ainda elabora mais vinhos do que se consome.
Quanto mais analiso essa realidade, mas me pergunto se o volume é mesmo o caminho para o mundo do vinho. Porque há uma realidade tão diversa entre aquelas vinícolas enormes, lotadas de tanques imensos de inox, fabricando litros e mais litros de vinho, e as vinícolas que elaboram brancos e tintos focados no conceito de terroir. Em uma visita que fiz a uma delas no passado, me vi perguntando que diferença teria de uma fábrica de refrigerante ou destes sucos industrializados. Provavelmente quase nenhuma. Todas são indústrias, com as suas competências.
Claro que não estou defendendo apenas o pequeno produtor. Há espaço para projetos de todos os tamanhos, propostas e objetivos. Mas acho que os dados mostram que o consumidor caminha para a filosofia de beber menos e beber melhor.
Se quiserem assistir o vídeo, segue abaixo:
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