
Por Ricardo Bohn Gonçalves
Decidi começar este texto com uma pergunta – vinho é investimento? Se o título fosse uma afirmação – vinho é investimento –, eu me veria no difícil papel de defender algo que eu não acredito. Isso porque vinho não é investimento, e nem será, ao menos no meu ponto de vista. Melhor começar o texto com a pergunta. Até para poder negá-la – ou não – ao longo desde texto.
Sei que vou na contramão dos diversos textos que vocês já leram que versam sobre “como investir em vinho”. Em geral, trazem os dados da Live-ex com as informações sobre o chamado mercado secundário de vinhos. Com sede em Londres, e grande parte dos investimentos em vinho é baseada no mercado inglês, a Live-ex acompanha o movimento do mercado e traz estatísticas sobre quanto valorizou os vinhos de Bordeaux ou quais os rótulos mais valorizados em um determinado momento.
Imagino que o vinho, como investimento, possa estar em alta mesmo. Um exemplo é o crescimento dos leilões. Há vários deles, inclusive no Brasil, o que mostra o interesse de consumidores para vender seus vinhos, assim como o objetivo de outros consumidores para comprar garrafas. Há também fundos de investimento, com lastro em vinho. Um destes fundos já me procurou para divulgar o produto para vocês, meus clientes.
Mas não acredito neste investimento, o que me coloca não apenas na contramão da tendência, como mostra que estou totalmente errado. Se eu tivesse investindo em vinhos ao longo destas mais de quatro décadas de atuação neste mundo, eu teria um bom dinheiro guardado. Sou do tempo em que os grandes vinhos de Bordeaux ou da Borgonha não custavam a fortuna que é hoje. Comprava vinho como a cotação da nossa moeda real era próxima ao do dólar. E quando doía muito menos no bolso comprar garrafas no sistema de en primeur, quando adiantamos parte do valor da compra para as vinícolas e pagamos o restante ao receber o vinho.
Posso, então, estar errado, mas não consigo ver o vinho como investimento. Investir é em ações, em empresas, não em vinhos. Mas do que apenas isso, essa ideia de valorização dos vinhos transformou as garrafas em itens inacessíveis para muitos consumidores.
No meu modo de ver, vinho faz sentido para beber, para desfrutar com um amigo, para acompanhar uma refeição. Vinho é alimento, é diversão, é amizade. Tenho até dificuldades psíquicas para entender o vinho assim como um valor financeiro. Até porque quando o vinho começa a se valorizar, a gente começa a deixar de vê-lo como ele deve ser. Se uma garrafa passou a ter um valor estratosférico, porque abri-la? Não seria melhor esperar uma nova valorização? E isso perde o prazer de desfrutar um vinho.
Assim, meu conselho não é de investidor em vinho, mas de alguém que aposta em investir na vida – e nada melhor do que uma taça de vinho para acompanhar os nossos bons momentos.
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