Miró foi um sábio com os vinhos

RBG Vinhos
The bottle of wine, 1924, Joan Miró


Por Ricardo Bohn Gonçalves

Não é novidade que eu adoro uma exposição de arte. Assim, não é de se surpreender que eu tenha aceitado o convite da WinePass para (re)visitar a exposição “Miró: mestre das formas”, com as obras apresentadas pelo seu curador, o Roberto Souza Leão, o Robertinho. Revisitar porque eu já tinha ido na exposição, que abriu em 7de agosto e vai até o dia 12 de outubro, na Faap. E que recomendo.

Visitas guiadas são uma das melhores (talvez até a melhor) maneira de entender uma exposição. Assim, esperava me surpreender com alguma história de Miró que não conhecia. O guia, no caso o próprio Robertinho, que trouxe a exposição para o Brasil, conhece muito da vida do artista, inclusive é amigo do seu neto, o Joan Punyet Miró, que é também o responsável pela administração das obras do avô.

                               
El Trovador, 1976, Joan Miró

Só não esperava me surpreender pelo perfil de Miró como um apreciador de vinhos. Até então conhecia a sua gravura El Trovador, de 1976, em que um saca-rolha substitui o desenho de uma mulher, que o artista fez para o Museu do Vinho, da vinícola Vivanco. Miró, explica o curador, era amigo dos proprietários da vinícola e fez duas cópias da gravura. Uma está no museu e a outra estava na nossa frente, na exposição. No mundo do vinho, Miró também fez o rótulo da safra 1969 do Château Mouton Rothschild.

Mas Robertinho trouxe outra informação sobre o artista: a sua paixão pelos vinhos, principalmente os de Rioja, e o seu desprendimento com as garrafas. Explico melhor: Miró, que faleceu em 1983, então com 90 anos, não era daqueles artistas que gostam da boemia e das muitas bebidas. Mas apreciava muito os vinhos nos almoços de domingo. Depois que completou 80 anos, ele decidiu que não compraria mais garrafas, mas que iria beber os vinhos que tinha em vida.

Não sei quantas garrafas ele tinha na ocasião, nem como calculou a frequência com que abriria seus vinhos. Mas ele calculou bem: quando faleceu, uma década depois, tinha apenas nove vinhos na sua adega. Um deles, um Tondonia Tinto 1976, então um vinho jovem de Rioja, que o neto presenteou a Robertinho.

E isso traz a questão: quando gostamos dos vinhos é quase que inevitável comprar mais garrafas do que precisamos, do que provavelmente beberemos em vida. Sempre tem aquele vinho que nos surpreendeu, aquela safra imperdível, aquela promoção, aquela garrafa que ganhamos de presente e a questão de qual a melhor ocasião para abrir cada uma delas.

Ao saber de Miró, lembrei dos vinhos do Yan de Almeida Prado(1898-1991), que foi um amante das boas coisas da vida. Intelectual, historiador, colecionador de artes e de vinhos. Depois da sua morte, o Renato Magalhães Gouveia organizou um leilão com os seus vinhos. Tinham muitos, acho que centenas de garrafas, mas menos do que muitos amigos de Almeida Prado esperavam. Porque ele também teve essa meta: a de beber os vinhos que comprou ao longo da vida. Mas não foi tão bom nos cálculos como Miró.

Eu espero ser melhor que Yan de Almeida Prado. Certamente serei, mas acho que não serei tão preciso quanto Miró.





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