
Por Ricardo Bohn Gonçalves
Muito se fala sobre a entrada do Guia Michelin no mundo dos vinhos. A sua decisão mais ousada e recente foi avaliar as vinícolas, concedendo “três uvas”, semelhantes às três estrelas que o guia premia os restaurantes.
A avaliação começou este ano e logo no início chama atenção por premiar as vinícolas e não os vinhos, ao contrário dos demais críticos do mundo de Baco. Em junho, o Michelin premiou 95 vinícolas na Borgonha, concedendo a nota máxima para nove domaine da Côte d’Or, divididas em cinco para a Côte de Nuit e quatro para a Côte de Beaune. Na semana passada, foi a vez de Bordeaux com nove chateaux, o mesmo número da Borgonha, recebendo as três uvas, de um total de 84 vinícolas premiadas.
Tanto em Bordeaux como na Borgonha, o guia optou por premiar os projetos mais conhecidos, de qualidade comprovada e vinhos muito bem pontuados. Mas, mesmo assim, deixou várias vinícolas consagradas em segundo plano.
Da Borgonha, por exemplo, as três uvas foram a Domaine Leroy, que fica em Vosne-Romanée, e a Domaine d’Auvenay, em Saint-Romain, ambas vinícolas de Lalou Bise-Leroy. As demais três uvas foram a Domaine de la Romanée-Conti (em Vosne-Romanée), a Cécile Tremblay (em Morey-Saint-Denis), a Dugat-Py (em Gevrey-Chambertin), a Roumier (em Chambolle-Musigny), a Coche-Dury (em Meursault), a Jean-Marc & Thomas Bouley (em Volnay) e a Hubert Lamy (em Saint-Aubin).
De Bordeaux, a nota máxima foi concedida para três vinícolas de Médoc, o Château Lafite-Rothschild (que é um premier grand cru classé de Pauillac), e para dois châteaux classificados como deuxième grand cru classé, o Château Léoville-Las-Cases, de Saint-Julien e o Château Montrose, de Saint-Estèphe. Foram premiados também três casas de Pomerol, o Petrus e os châteaux La Conseillante e Château Lafleur; duas vinícolas de Saint-Emilion: o Château Cheval Blanc e o Château-Figeac. E, por fim, um château de Sauternes, o Château D’Yquem, que é a única dos vinhos botrityzados a ter a classificação de Premier Cru Supérieur.
Em Bordeaux, pode-se dizer que o Michelin foi ousado ao deixar de fora da relação premium quatro dos cinco chateaux premier grand cru, da classificação de 1855. Criada a pedido de Napoleão III, esta relação sempre pareceu soberana entre os grandes vinhos do mundo. Mas é possível citar grandes châteaux e domaines das duas clássicas regiões francesa que não conquistaram as três uvas.
Agora é acompanhar os próximos passos do guia. Desde que comprou a totalidade da publicação The Wine Advocate em 2019, que podemos acompanhar o interesse crescente do Michelin no universo dos vinhos. Não sei dizer se é uma diversificação natural de seus negócios ou se é uma aposta de que a gastronomia não vai viver sem os vinhos.
Logo depois de ter adquirido a publicação fundada por Robert Parker, o Michelin passou a premiar sommeliers nas solenidades em que revela os restaurantes estrelados a cada ano. Sempre são profissionais escolhidos pela equipe misteriosa do Michelin, já que um dos méritos do guia é conseguir manter em segredo a identidade dos jurados, mesmo nestes tempos de mídias sociais e pouca privacidade.
No Brasil, a premiação está em sua terceira edição. Em 2024, o Guia anunciou a nova categoria e premiou Maíra Freire, do restaurante Lasai, do Rio de Janeiro, como a melhor sommelière. No ano seguinte, foi a vez de Marcelo Fonseca, do Evvai, em São Paulo. E, agora em 2026, em sua mais recente edição, o premiado foi Robério de Sousa Queiróz, do Maní, também em São Paulo.

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