
Por Ricardo Bohn Gonçalves
Já estamos na primavera. A estação das flores começou na última terça-feira, 22 de setembro, dia de equinócio (quando o dia e a noite têm praticamente as mesmas 12 horas de duração) da primavera no hemisfério sul e de equinócio de outono no hemisfério norte. E eu brindei a nova estação com o Quinta da Murta Calcarius 2024, um branco elaborado com a uva arinto, dentro da denominação de origem Bucelas, em Portugal.
Escolhi o vinho pela sua alta acidez, mineralidade e muito frescor. A primavera, para mim, é sinônimo de vinhos mais frescos, que contrastam com os tintos mais estruturados que bebemos no inverno. Mas claro que isso na teoria porque com as mudanças que temos no nosso clima, difícil dizer que a chuva e a queda de temperatura registrada em São Paulo nesta semana possam marcar o início da primavera como sinônimo de vinhos mais leves e frescos. Até porque as temperaturas mínimas perto dos 10, 12 graus destas noites pedem mais um tinto de boa estrutura.
Mas neste post resolvi me ater ao calendário, com as quatro estações do ano, esquecendo a atual realidade climática. E como sou daqueles que acha que o branco também pode combinar com dias mais frios, decidi escolher este arinto para marcar o início da nova estação. É um branco que vem me encantando, com as suas uvas vindo das colinas calcárias de Bucelas, ao norte de Lisboa, e que se encaixa naquela categoria de boa qualidade e preço – aqui na RBG, ele é vendido por R$ 110.
Talvez até seja um branco que contrarie nos aromas a lógica dos vinhos de primavera. Mesmo bem fresco (o que combina com a estação), o seu perfil é mais mineral, enquanto pensamos na primavera como a época para os vinhos com aromas florais. Flor de laranjeira, rosas, violetas são algumas das notas aromáticas que encontramos em muitos vinhos. Aqueles elaborados com a uva moscato são, acredito, o melhor exemplo. Muitos dos brancos feitos com a variedade nos lembram flor de laranjeira, jasmim e outros aromas que remetem a flores, mas nem sempre conseguimos identificar. Isso porque a família da uva moscato é grande, com a muscatblanc à petits grains, a moscato de Alexandria, a Giallo, a de Hamburgo, numa lista longa, que resulta em vinhos secos, espumantes e doces.
Outra variedade bem floral é a gewurztraminer. Seus vinhos trazem sempre um perfume intenso de rosas e também de lichias. Brinco que é daqueles goles perfeitos para as provas às cegas, porque seu aroma inconfundível nos faz acertar qual é a uva. A torrontés, que faz sucesso na Argentina, também traz aromas bem florais, como as rosas, os gerânios e o jasmim, assim como a viognier com suas notas de flores brancas.
E não são apenas as uvas brancas. Há vinhos tintos também florais. Atouriga nacional, por exemplo, é conhecida pelas suas notas de violetas e a nebbiolo lembra muito rosas. Meu convite é para brindarmos a primavera com goles florais.
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