Vinhos redescobertos

RBG Vinhos

Por Ricardo Bohn Gonçalves



A ideia deste texto nasceu de uma taça de beaujolais que eu provei recentemente. Era um Domaine Mee Godard 2023, com vinhedos de gamay cultivados em Morgon, um dos crus de Beaujolais. Descreveria este tinto pelas suas notas de frutas vermelhas, com um toque floral, outro de especiarias, que combinam com suas notas terrosas. No paladar é elegante, com taninos finos, delicado.

São termos que eu jamais usaria para descrever um beaujolaisalguns anos atrás, não mais do que uma década. Beaujolais era quase apenas o nouveau, aquele tinto com aromas e sabores de banana, quase sem graça e vendido por um preço muito acima do que o seu valor. E os grandes vinhos da região, quando elaborados, ficam quase escondidos.

Hoje, Morgon é quase sinônimo de Beaujolais de muita qualidade e, não raro, preço. Este vinho, em particular, vendemos na RBG, por R$ 284, o que eu faria o meu marketing e diria que é uma garrafa com boa relação entre a sua qualidade e o seu preço.

Este tinto é também um exemplo de como fazer vinho corretamente. Isso graças ao conhecimento que os produtores foram adquirindo nas últimas décadas, o que inclui não apenas a tecnologia (o controle da temperatura durante a fermentação fez uma revolução na qualidade do vinho, por exemplo), mas também ao maior entendimento do vinhedo e, principalmente, a uma preocupação real de aumentar a qualidade da bebida e não apenas elaborar volumes crescentes.

Não consigo precisar quando os produtores passaram a realmente se preocupar com a qualidade da bebida, mas o fato é que o mercado foi pedindo vinhos mais sofisticados e os produtores foram respondendo a essa demanda. Perceberam que tinham uma ótima matéria-prima, que lhes permita subir não apenas um, mas vários degraus na qualidade. Melhoraram o plantio, reduziram os rendimentos, investiram nas vinícolas, enfim, uma série de mudanças que resultou em brancos e tintos melhores.

O Beaujolais não é o único exemplo. Gosto da história do alvarinho, ou albariño como os espanhóis preferem (e a variedade é originária da Espanha). Era uma uva branca entre as tantas da região de Vinhos Verdes. Hoje, ela brilha como a variedade principal do Minho, que é o nome oficial da região que antes definíamos como Vinhos Verdes. E seus vinhos são maravilhosos, complexos e com capacidade de envelhecer.

O mesmo vale para a Borgonha. Fora da Côte D’Or, os chardonnays e pinot noir da Borgonha eram simples, sem complexidade. Atualmente, Côte Chalonnaise e o Mâconnais (Mâcon) são duas sub-regiões vitivinícolas localizadas no sul da Borgonha, conhecidas por oferecerem boa relação entre qualidade e preço em comparação com Côte de D'Or. E chegaram a este lugar por mudarem a concepção de cuidarem dos seus vinhedos.

São exemplos que mostram que a qualidade pode ser lapidada com a mudança de mentalidade de seus produtores.


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